14/12/2017

Resenha - Mindhunter

O que leva os serial killers a cometerem atrocidades? Esses "monstros" nascem dessa forma, ou são construídos? Essas são algumas das perguntas que John Douglas tenta responder em sua obra, Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano. No livro, o autor narra sua trajetória no FBI e como foi um dos responsáveis por desenvolver um método de perfilamento de serial killers, algo que revolucionou a forma como os crimes são investigados

Preço: R$ 39,90
Autor: John Douglas e Mark Olshaker
Editora: Intrínseca
Páginas: 383
Onde encontrar: Amazon / Saraiva / Submarino

Mindhunter mescla uma autobiografia com análises espetaculares de crimes investigados por Douglas e sua divisão. A narração e os relatos presentes no livro, criam uma atmosfera tensa, que fica ainda  mais forte quando nos lembramos de um detalhe: nada narrado ali é ficção, todos os acontecimentos mencionados são transcrições de crimes reais. O autor perpassa uma variedade imensa de delitos assustadores, assassinatos, estupros, sequestros, mutilações e até canibalismo, são algumas das atrocidades descritas na obra, que obviamente não é indicada para aqueles de estômago fraco.

Mesmo trabalhando com temas tão complexos como a psique humana e crimes extremamente violentos, os autores conseguem construir uma narrativa muito dinâmica que faz a leitura fluir rapidamente. Mindhunter é aquele tipo de livro que te faz pensar durante horas e analisar as informações que foram apresentadas durante a leitura. Existem descrições gráficas dos crimes e cenas em que Douglas descreve as cenas dos crimes, como os cadáveres foram encontrados, etc.  Douglas avisa no começo do livro que Mindhunter não tem por objetivo ensinar os métodos usados pelo FBI durante as investigações, e que na verdade é apenas um retrato de  tudo que o autor vivenciou durante os anos na ativa. Alguns dos casos apresentados vão de motivações raciais, até casamentos falidos, etc. O autor mostra que o ser humano é capaz de perversidades aterradoras pelos mais diversos motivos. 

Mindhunter com certeza foi uma das melhores leituras de 2017. Mesmo contendo extrema violência e algumas informações técnicas, em nenhum momento a leitura se torna tediosa ou cansativa. O imenso conhecimento de Douglas sobre como as cenas dos crimes podem entregar o perfil dos assassinos é simplesmente genial! Mindhunter é uma leitura indispensável para qualquer fã de mistérios, romances policiais e de filmes como Hannibal.






Em 2017 a Netflix lançou Mindhunter, uma adaptação do livro de John Douglas com entrevistas feitas com os Serial Killers (um dos recursos utilizados por Douglas nas análises dos padrões entre criminosos). Mindhunter foi bem recebida pelo público e pela crítica especializada e é um ótimo complemento para uma leitura indispensável, confira o trailer abaixo:


13/12/2017

A sutileza de Becky Albertalli

Conheci Becky Albertalli em 2016 ao ler Simon vs. a agenda Homo Sapiensi, devorei a história em uma madrugada porque não conseguia largar, queria conhecer mais os personagens, desvendar o mistério do livro, saber mais sobre Simon que se tornou um dos meus personagens favoritos da vida e quando terminei, não conseguia parar de pensar em como o livro debatia temas importantes de forma clara, porém paciente, para que todos os leitores pudessem compreender. Simon não é só um romance LGBT fofinho, mas uma história sobre descobertas, aceitação, família e amizade.

Preço: R$ 25,90
Autor: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Páginas: 271

Simon vs. a agenda Homo Sapiens narra a história de Simon Spier, ele é gay e tem certeza disso, mas ainda não contou para nenhum de seus amigos e familiares. Então ele vê seu mundo mudar completamente quando "conhece" Blue, um jovem gay de sua escola com quem Simon sente que pode se abrir. Eles trocam confidências através de e-mails secretos e aos poucos Simon se vê completamente apaixonado por ele, mas por um descuido, deixa o e-mail aberto em um espaço público. Um colega descobre tudo e decide chantagear o garoto. Simon precisa descobrir quem é o rapaz por quem está perdidamente apaixonado, decidir o que fazer sobre o menino que o chantageia e revelar a verdade sobre si ou continuar deixando seus segredos viverem por ele.

O que surpreende em Simon vs. é a sinceridade de Becky, a autora compreende os conflitos de um jovem gay e consegue expressá-los com maestria. Simon é um personagem fácil de se identificar, ele é divertido, romântico, sarcástico e normal, como qualquer outro jovem de sua escola.  Sua história traz uma verdade tão bonita e necessária e é por isso que considero Simon vs. a agenda Homo Sapiens um livro excelente, mas muito mais que isso, Simon é uma experiência transformadora, capaz de abrir nossos olhos paras os preconceitos do dia a dia e nos fazer entender as dificuldades de realidades as quais não pertencemos, e é por isso que essa história está na minha lista de melhores livros da vida <3



Logo em 2017, a Editora Intrínseca decidiu publicar o segundo livro da autora, Os 27 Crushes de Molly. Dessa vez Becky escreve sobre Molly, uma garota gorda e insegura que tem medo de se envolver afetivamente com alguém, mas que começa a se sentir solitária quando sua irmã gêmea (e sua melhor amiga) se envolve em um relacionamento.

Preço: R$ 25,90
Autor: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Páginas: 271

Mesmo fazendo parte do mesmo universo, Os 27 Crushes de Molly e Simon Vs A Agenda Homo Sapiens são livros bem diferentes, Molly é uma protagonista insegura que teme a solidão, seu bom humor é notável, mas a pesonagem também passa por sua cota de momentos melancólicos. A leitura é extremamente dinâmica, Becky consegue construir uma trama divertida e leve, mas mesmo assim debatendo temas profundos e interessantes como gordofobia e a necessidade de visibilidade da comunidade LGBT. A minha maior dificuldade com a leitura, foi relacionada aos problemas enfrentados por Molly. A protagonista tem alguns dilemas superficiais que me deixaram um pouco incomodado, porém isso acontece quando somos adolescentes e aumentamos as situações negativas.

A honestidade da autora ao abordar pensamentos que ela mesma teve durante sua vida, inseguranças e incertezas, constroem uma história verdadeira e tocante, que deve ser lida por todos. Os 27 Crushes de Molly, tem alguns probleminhas que podem interferir na leitura, mas ainda sim é uma obra muito boa que com toda certeza merece ser lida. Os livros da Becky Albertalli são extremamente necessários, representam pessoas que por muito tempo foram ignoradas na literatura, humanizam, educam e transformam à cada página lida.





17/11/2017

Caros Simon e Becky...

Hoje (17/11) é o aniversário de vocês e eu não poderia deixar esse dia passar sem escrever algo. Sinto como se fôssemos amigos, e um amigo NUNCA esquece do aniversário do outro. Eu passaria horas falando sobre a importância de vocês na minha vida, mas acho que mesmo assim ainda não conseguiria descrever o quão transformador foi conhecer Simon Spier e Becky Albertalli. Poderia parabenizá-los, dizer as coisas que admiro nos dois, mas escolhi fazer algo mais simples, quero só agradecer...

Becky, você nos mostrou que não é preciso ser LGBT para representar alguém de forma tão sincera e bela, sua escrita doce inspira e estimula, faz pessoas se apaixonarem pela leitura, mas também entenderem os conflitos e lutas enfrentados por aqueles que não se encaixam no que a sociedade aceita, e sinceramente... muitas vezes não se encaixar é algo extremamente difícil, mas tudo se torna mais simples quando temos pessoas como você ao nosso lado.

Simon, obrigado por sua força e por se permitir encontrar um amor. Lembro de te conhecer em 2016, numa noite em que perdi o sono para simplesmente poder continuar a leitura de uma história que me marcou como nenhuma outra conseguiu, passei a madrugada inteira rindo de seu senso de humor afiado, admirando as amizades maravilhosas que você construiu e torcendo para um dia encontrar alguém que me fizesse sentir como você e Blue. Sua história me mostrou que o amor é possível, mesmo se você for "diferente" e que ser "normal" pode ser bem menos interessante.

Obrigado por inspirarem, dar coragem e voz para aqueles que muitas vezes foram silenciados, por mostrar que garotos podem se apaixonar por outros garotos, e que não tem nada de errado nisso. Pela honestidade e sinceridade em contar uma história de amor que abraça a todos, por dar força para muitos jovens LGBT espalhados pelo mundo, ler Simon, foi como receber um abraço apertado e ouvir que no final tudo vai ficar bem.
Muitas felicidades, Oreos, viagens para o Brasil e livros <3
Obrigado por tudo.
Com amor, Eduardo Britto.

10/09/2017

Resenha - Deuses Americanos

Após passar três anos preso, Shadow finalmente se vê livre, mas recebe uma notícia que altera completamente o rumo de sua vida. Desolado e desorientado, ele conhece o excêntrico Wednesday, um homem misterioso e astuto que convida-o para uma jornada cheia de questionamentos e conta-o que divindades das mitos antigos existem e que estão entrando em decadência por causa de inimigos novos e mais poderosos.

A edição lançada pela Intrínseca contém extras como depoimentos de Gaiman sobre a escrita, cenas adicionais, personagens que não apareceram na versão final e a transcrição de uma entrevista com o autor.

Preço: R$ 59,90
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 576

Mesmo sendo premiadíssima e tida como um clássico por vários leitores, Deuses Americanos é um divisor de águas quando se trata de avaliações. Isso foi um dos aspectos mais chamativos para mim, me questionava a razão da divergência de opiniões e após lê-lo completamente, posso dizer que ainda busco a resposta. 

A obra de Gaiman é claramente pretensiosa, contém algumas falhas, principalmente no quesito do ritmo, a trama começa de forma dinâmica, alguns capítulos depois cai em uma repetição de acontecimentos desinteressantes, para voltar com tudo no desfecho, algo que dificultou minha leitura e até me manteve afastado do livro por alguns dias. Os capítulos Vinda à América quebram alguns dos momentos cansativos da trama e inserem histórias breves sobre a chegada de imigrantes e das divindades trazidas por eles.

Mesmo que o ritmo dos acontecimentos possa atrapalhar a leitura, o misticismo e a escrita de Gaiman estimulam o leitor a continuar. Gaiman não dá respostas óbvias, é preciso prestar atenção nos detalhes para descobrir quem são as divindades apresentadas na história e de qual mitologia elas são provenientes. Isso garante um tom de "mistério" que norteia toda história e mantém o interesse dos leitores mais curiosos (como eu).  Além disso, o autor insere subtramas que atraem mais do que a própria trama principal e personagens marcantes por todas elas. Outro defeito da obra é o protagonista, Shadow é de longe o personagem mais desinteressante da trama, isso é discutido pelos próprios personagens em alguns momentos, mas mesmo sendo intencional, isso ainda prejudica a leitura em diversos momentos.

Mesmo com os defeitos mencionados, Deuses Americanos ainda é uma obra-prima, Gaiman tem uma escrita marcante e consegue desenvolver aspectos místicos convivendo com acontecimentos rotineiros da vida humana (algo que me lembrou da escrita de Stephen King), os personagens são memoráveis e únicos, com características fortes e passados misteriosos. Gaiman complementa a falta de carisma do protagonista com coadjuvantes tão interessantes, que o leitor continua pensando neles após a conclusão da leitura, podemos destacar o deus Anansi, Laura Moon e obviamente, Wednesday.

Complexo, interessante e intrigante, Deuses Americanos é uma obra que discute a xenofobia, humaniza imigrantes e refugiados, algo que é extremamente necessário para os estadunidenses quando o próprio presidente dissemina preconceitos. A história é densa, memorável e recheada de personagens fascinantes que merecem um pouco de sua atenção. Recomendada para fãs de Neil Gaiman, pessoas que gostam de ler sobre mitologias, deuses e misticismo. Também é indicada para aqueles que ficaram órfãos de Percy Jackson e buscam uma visão mais madura dos mitos clássicos.

Deuses Americanos foi adaptado para as televisões em abril de 2017, a série concluiu sua primeira temporada, foi renovada para a segunda e é distribuída internacionalmente pelo serviço de streaming da Amazon.





Resenha - Mitologia Nórdica

Ainda não superei essa capa <3
A proximidade de Neil Gaiman com mitologias é constantemente abordada em suas obras, depois de explorar as divindades em Deuses Americanos e em Os Filhos de Anansi, Neil lança uma coletânea de contos chamada Mitologia Nórdica. As histórias vão do surgimento do mundo até o Ragnarok, cheias de humor, ironias e algumas tragédias, Neil Gaiman reinventa os clássicos escandinavos usando de sua escrita dinâmica e profunda.

Preço: R$ 44,90
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 288

Há alguns anos, publiquei uma resenha de Os Filhos de Anansi, lembro que a leitura foi bem desagradável e criei uma aversão ao nome de Gaiman, mas depois de ouvir muito sobre a série Deuses Americanos (lançada em abril nos EUA, adaptação do livro Deuses Americanos.) resolvi dar mais uma chance para o autor e solicitei Mitologia Nórdica. A decisão foi uma das mais acertadas que tomei como parceiro da Intrínseca.

Mitologia Nórdica é uma coletânea de contos executada com maestria, as histórias estão interconectadas, mas funcionam muito bem se lidas individualmente. Cada uma delas possui uma moral, enredo cativante e os personagens marcantes da mitologia escandinava. É impossível esquecer da astúcia de Loki, da bravura/burrice de Thor e de muitas outras personagens como Odin, Frigga, Freya e Heimdall. A escrita de Neil Gaiman é fluida e muito divertida, a forma como o autor constrói os acontecimentos bizarros da mitologia nórdica é fascinante. O universo das divindades nórdicas não é algo muito fácil de ser abordado e explicado, mas Gaiman o faz com muita habilidade e sem tornar a leitura maçante.

Outro aspecto que deve ser extremamente elogiado, é a edição de altíssima qualidade feita pela
Editora Intrínseca. Além de ter uma arte linda, o livro é em capa dura, possui páginas ilustradas separando os contos e um glossário completíssimo com os nomes das divindades mencionadas em todas as histórias que compõem a obra. Não é apenas uma leitura excelente, mas também uma obra extremamente linda para ter na sua estante.

Dinâmica, interessante e cheia de morais, Mitologia Nórdica consegue apresentar as ideias fantasiosas dos escandinavos de forma eficiente e compreensível. Uma leitura breve, mas cheia de acontecimentos que irão fazer o leitor se divertir bastante. Além do conteúdo de qualidade e da escrita brilhante de Neil Gaiman, o livro possui uma edição que simplesmente não pode faltar na sua estante. Recomendado para todos que só conhecem Thor, Odin e Loke pelos fimes da Marvel e também para aqueles que se divertiram lendo as releituras mitológicas de Rick Riordan.